Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Pelo exercício responsável do jornalismo


Vamos falar de diplomas. Ou melhor, muito melhor, de jornalismo.

É dado que o STF decidiu extinguir ontem, por 8 votos a 1 (do ministro Marco Aurélio), a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista. Atendeu a pedido, assim, do Ministério Público Federal (?) e do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (!) contra acórdão do TRF-3, que em tempos já longínquos reafirmou a necessidade do diploma.

O ponto central do voto do relator, Gilmar Mendes, foi a liberdade de expressão. Considerou, com seus colegas, que a exigência de diploma cerceia a liberdade de expressão.

“O jornalismo e a liberdade de expressão são atividades que estão imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensados e tratados de forma separada.”

Perfeito, mas falacioso. Há que se diferenciar liberdade de expressão de exercício profissional do jornalismo - reportagem diária, sete horas por dia (vá lá, no padrão legal), perguntando, escutando, tramando nexos e mediando vozes. Não há impedimento hoje à liberdade de expressão. Houve-o na ditadura. É falacioso propor que a impossibilidade de um cidadão qualquer de ganhar a vida como repórter é obstáculo à sua liberdade de expressão. Esta é garantida na Constituição, e o cidadão a exerce em todo tipo de foro - não só nos jornais - e, claro, é bem-vindo a exercê-la também nos meios impressos e eletrônicos, na forma de cartas, artigos, análises, resenhas, colunas de opinião, enquetes.

Médicos, advogados e economistas, para ficar nas especialidades mais citadas, expressam diariamente suas opiniões na mídia. Arquitetos, "fashionistas", paisagistas, cozinheiros também.

Comparar o Brasil de 1964 com o atual, sob o prisma do cerceamento à liberdade de expressão, torna-se ainda mais anacrônico em tempos de internet.

Mas prossigamos.

O segundo argumento forte de Mendes diz respeito à qualificação. Cita o artigo 5º, inciso 13 da Constituição, que prega o livre exercício de qualquer profissão, desde que atendidas as qualificações profissionais previstas em lei.

Concordamos.

Porém acrescenta que a qualificação - prestemos atenção - só pode ser exigida nos casos em que a falta do diploma é um risco de dano à sociedade. Exemplos citados? Medicina, engenharia e advocacia.

(Médicos, engenheiros e advogados, durmam tranquilos.)

E conclui, com chave de ouro (de tolo): "Um excelente chefe de cozinha certamente poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima o Estado a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área."

Ora, o que diz Mendes é uma bobagem monumental. E nem só pela inventividade metafórica - bem ao gosto do atual governo -, quando compara jornalistas a cozinheiros, motoristas e outras atividades curiosas.

Erra no acerto. De fato, é a demanda por qualificação que resguarda profissões do livre-exercício, segundo a Constituição. Impossível concordar, contudo (embora outros ministros e olimpianos do jornalismo me desmintam), que o jornalismo é atividade em que a qualificação é desnecessária. Não há risco à sociedade, diz Mendes. Não há? Maria Aparecida Shimada discordaria.

Aqui tocamos noutro ponto vital da questão. O debate em torno da obrigatoriedade do diploma não é - ou pelo menos não deveria ser - pautado pelo não-argumento da reserva de mercado. É tolice pensar que maus profissionais terão um brilhante futuro pela frente porque são detentores de diplomas cintilantes. Nem bem as redações absorvem, hoje, o exército anual de graduados. Mas o ponto não é esse. Não é por isso que se pautam os razoáveis da discussão. O diploma é preciso sob o prisma justo da qualificação. E precisamente porque a Constituição salvaguarda profissões que oferecem risco à sociedade, como o jornalismo (sim!), que a qualificação se faz premente.

Daí derivamos por uma tangente até tocar noutra esfera. A universidade. Os olimpianos gostam de se pensar como "self made men", ou "self made journalists", numa versão risível do sonho americano. Podem até ser. Mas a universidade não é o zumbi cambaleante que se quer fazer crer nesta questão. Ela é, pelo contrário, viva, vivíssima.

Há quarenta anos, no caso da USP, vem produzindo massa crítica na área de comunicação. Busca, sim, qualificar o profissional - e não para exercer a técnica de fritar ovos perfeitos nem para lapidar o talento que vem de berço - outra vilania dos detratores do diploma.

A universidade é o foro para a qualificação que todos deveríamos almejar para os mediadores sociais - formação humanística, profundo senso de responsabilidade, ética, abertura e, por que não, técnica também, em último lugar, como o tijolo final que se assenta sobre os jovens. A técnica de escrever bem, concatenar ideias, respeitar os vários lados de uma notícia, estabelecer conexões, captar tendências. Necessário arremate, mas ainda assim pátina da formação que a antecede: teoria da comunicação, filosofia, sociologia, língua portuguesa, antropologia. Comunicação Social, na ainda necessária redundância. Esquecem-se os ministros que a formação em jornalismo não é composta apenas dos tradicionais "laboratórios" de prática jornalística. Nem, aliás, centram-se neles.

Então com o que as faculdades de comunicação se preocupam? Uma falha de todos nós, jornalistas profissionais e acadêmicos/pesquisadores, está em não estabelecer uma ponte de diálogo que permita esse entendimento. Para além do estereótipo do jornalista "manipulador de consciências" ou do acadêmico despassarado "que nunca pisou em redação". Produz-se conhecimento de ambos os lados, mas essas esferas já não se tocam hoje - de há muito, em realidade.

O STF incorre no erro da apologia à técnica. Direito e medicina, ora, são também técnicas. Mas são mais do que isso, como o jornalismo. Incorre o STF na visão de que jornalismo é difusão: repassar informações de A para ABCD. É a apologia ao que nas Redações de antanho se chamava "repórter capivara", aquele que vai à coletiva de imprensa com o gravador ligado, retorna e decupa a fita, faz a matéria - ou melhor, transcreve citações. A analogia: bastaria então mandar à coletiva uma capivara com um gravador atado ao pescoço.

Mas jornalismo não é difusão. Nem hábitat das capivaras. É mediação social.

Outra questão me é soprada pelos mais veteranos. Experiências de radicalização liberal na década de 80, principalmente, naufragaram fragorosamente. Admnistradores, sociólogos, médicos lotavam as Redações em busca do glamour jornalístico. Não duravam mais de trimestre. Para eles, o jornalismo era bico. Ou distração. Ou tentativa. A ideia de profissão ainda associada fortemente à formação acadêmica original. As Redações precisam de profissionais muito mais comprometidos com suas carreiras - sim, e por que não? - e, consequentemente, com a veracidade, profundidade e relevância de sua ação social. O jornalista diplomado - superemos a ideia de reserva de mercado, por favor - não tem plano B de vida. É jornalista. Mas não nasce jornalista, como se gabam alguns olimpianos, cujo sucesso a nada ou a ninguém parecem dever.

Por fim, um vilania que deve ser gostosamente rebatida é a de que foi a ditadura que regulamentou o jornalismo. Deduz-se: para cercear a liberdade de imprensa. Distorção. Foi, sim, NA ditadura que a profissão foi regulamentada, mas nada deve a ela. Não foram os militares a redigir o projeto ou hasteá-lo como bandeira. A luta dos jornalistas pela regulamentação da profissão data de décadas anteriores, já remonta a 1930, de modo incessante. Nunca foi completamente abandonada, e graças a esse esforço de gerações, incansável, culminamos, em 1969, com a regulamentação. É um argumento frágil o do "entulho ditatorial". Usa a história, que desconhece, para desqualificar a categoria.

Enfim, resta a esperança de que a regulamentação volte a tramitar, a partir da estaca zero, no Congresso - embora com rara chance de caminhar antes do término do governo já hipnotizado pelo vislumbre da sucessão. Um governo, aliás, marcado pela antipatia à imprensa, manifesta em Conselhos (este sim entulho ditatorial), raras entrevistas, ataque direto a jornalsitas.

Os cursos de jornalismo devem mudar? Sim. A qualificação deve ser debatida e aperfeiçoada? Sempre. Podemos prescindir de qualquer um dos dois? Não. A imprensa melhorará com a "democratização" da labuta do repórter? Não. Profissionais de outras áreas podem se tornar bons jornalistas? Sem dúvidas. Mas não é na esquisita metonímia de tomar Nelson Rodrigues pelos Diários Associados que transformaremos o lide sumário brasileiro na jóia narrativa dos melhores periódicos do mundo.

Não é, certamente, reiterando a impossibilidade de o jornalismo ferir a malha social, como quer Mendes, que incentivaremos as melhores práticas de comunicação. Extinguir a qualificação simplesmente não é o caminho certo para construir uma imprensa mais sólida e, principalmente, responsável.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

FIM DO DIPLOMA PARA JORNALISTA


O tempo é o senhor da razão. Veremos se foi anacrônica ou não a decisão, que provocou revolta de colegas.

Transcrevo trecho inicial da reportagem do G1. Leia a íntegra e leia muito mais.



O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira (17) derrubar a exigência do diploma para exercício da profissão de jornalista. Em plenário, por oito votos a um, os ministros atenderam a um recurso protocolado pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no estado de São Paulo (Sertesp) e pelo Ministério Público Federal (MPF), que pediam a extinção da obrigatoriedade do diploma. O recurso contestava uma decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), que determinou a obrigatoriedade do diploma. Para o MPF, o decreto-lei 972/69, que estabelecia as regras para exercício da profissão, é incompatível com a Constituição Federal de 1988.
Relator do processo, o presidente do STF, Gilmar Mendes, concordou com o argumento de que a exigência do diploma não está autorizada pela Constituição. Para ele, o fato de um jornalista ser graduado não significa mais qualidade aos profissionais da área. “A formação específica em cursos de jornalismos não é meio idôneo para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros”.

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Capa da The New Yorker é desenhada em iPhone

A capa da mais recente edição da New Yorker, uma das revistas mais cultuadas do mundo, foi inteiramente feita no iPhone, com o aplicativo Brushes.

O resultado é interessante, etéreo, sem a precisão ou naturalismo de aplicativos sofisticados de produção/edição de imagens.

No vídeo abaixo, o processo. E mais sobre o tema aqui.

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Arqueologia na sociedade do espetáculo


O NYT traz hoje um bom ponto de partida para a reflexão sobre a relação Ciência e Jornalismo.

"Seeking a Missing Link, and a Mass Audience", mostra o fortíssimo esquema midiático que foi construído em torno da divulgação de um fato arqueológico relevante, a descoberta de um fóssil de 47 milhões de anos que poderia mudar o entendimento da comunidade científica sobre a evolução humana, na melhor das hipóteses.

O interessante é definitivamente como o acontecimento ocorre em articulação com documentários, coletivas, capas de revista...

Sociedade do espetáculo.

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Atualização: 3 temas para jornalismo na atualidade

Várias coisas acontecendo no mundo jornalístico brasileiro ultimamente. Três de destaque: debate sobre a reforma do currículo das faculdades, que teve audiência hoje, revisão da lei de imprensa, com o STF julgando-a um entulho ditatorial, e, a mais aguardada do momento, a revisão sobre a obrigatoriedade do diploma. Esta, extremamente polêmica.

Isso sem contar o macrotema global, que não sai mais da pauta americana e pouco a pouco contamina a brasileira: os jornais impressos sobreviverão?

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

New York Times fatura cinco prêmios Pulitzer

Depois de The Washington Post varrer o Pulitzer Prize no ano passado, levando seis para casa, agora é a vez do rival The New York Times, jornal obrigatório para todo estudante de jornalismo, jornalista, professor ou pesquisador brasileiro.

O diário levou cinco Pulitzer - para quem não sabe, o prêmio mais prestigiado da categoria no mundo, distribuído desde 1917! Se a leitura diária é obrigatória, a releitura das peças vencedoras o é duplamente.

Destaque para outra publicação, The Las Vegas Sun, que levou um dos mais importantes prêmios, de "serviço público", com uma bem sacada e bem executada reportagem sobre mortes de operários nos maiores canteiros de obras da cidade.

Entre os prêmios do Times este o de fotografia feature (digamos, especiais), para Damon Winter. Veja o portfólio premiado aqui: feature photography. A foto do alto é dele. Belíssimo trabalho de construção de sentidos pela imagem, verdadeiro fotoJORNALISMO.

Cobertura do prêmio pelo NYT aqui.

A lista completa:

Public Service - Las Vegas Sun
Breaking News Reporting - The New York Times Staff
Investigative Reporting - David Barstow of The New York Times
Explanatory Reporting - Bettina Boxall and Julie Cart of the Los Angeles Times
Local Reporting - Detroit Free Press Staff
and
Ryan Gabrielson and Paul Giblin of the East Valley Tribune, Mesa, AZ
National Reporting - St. Petersburg Times Staff
International Reporting - The New York Times Staff
Feature Writing - Lane DeGregory of the St. Petersburg Times
Commentary - Eugene Robinson of The Washington Post
Criticism - Holland Cotter of The New York Times
Editorial Writing - Mark Mahoney of The Post-Star, Glens Falls, NY
Editorial Cartooning - Steve Breen of The San Diego Union-Tribune
Breaking News Photography - Patrick Farrell of The Miami Herald
Feature Photography - Damon Winter of The New York Times

Sábado, 18 de Abril de 2009

Notícias da crise 3 - jornais americanos


Para finalizar a sessão urucubaca, panorama (negro) da Sociedade Americana de Editores de Jornais mostra que foram extintas mais de 10% de todas as vagas em redações de 931 jornais diários dos EUA ao longo de 2008. Pior índice desde 1978, início da série histórica.

Em números absolutos, foram quase 6 mil profissionais dispensados, de perto de 50 mil atuantes em redações de jornal diário.

A web contratou 21% mais, mas, com universo total de 2,3 mil jornalistas exclusivos, esteve distante de compensar as perdas.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Notícias da crise 2 - papel jornal

Saiu muito discretamente por aqui, mas com algum alarde nos meios norte-americanos: a maior fabricante do mundo de papel jornal, a AbitibiBowater, entrou com pedido de concordata no dia 16.

Para dimensionar o negócio: a empresa detém 45% do mercado da América do Norte. Pedirá ainda concordata no Canadá, mas, por ora, mantém a operação na Grã-Bretanha e na Coréia do Sul.

Suas dívidas só nos EUA somam US$ 8,78 bilhões.

Efeito colateral da crise nos jornais, e um lembrete de que há uma cadeia produtiva por trás deles. Em crise.

Notícias da crise 1 - Infoglobo


As últimas semanas foram cruéis para a imprensa escrita, no Brasil e no mundo.
Começando pelo quintal. Num lance inesperado, a Infoglobo anunciou um volume expressivo de cortes. Só de jornalistas, mais de 20, distribuídos entre O Globo, Extra e Diário de S. Paulo. No total (incluindo os setores administrativos, por exemplo), fala-se em 140 demissões.

Só no Diário foram 14 jornalistas. Mais inesperado ainda, nesse caso, porque o jornal anunciou uma reformulação gráfica, sobre a qual Midialogismo se debruçará oportunamente.

Até aqui os cortes no Brasil aconteciam em veículos menores ou em sabidas dificuldades financeiras - caso da editora Símbolo, que convieve, aliás, com greve de jronalistas há mais de um mês em razão do atraso de salários. Agora, bateu no líder. Nuvens no horizonte. Enquanto isso, Estadão congela vagas, mas não fala em cortes. E Folha contrata um repórter especial, Marcio Aith, saído de Veja, e planeja reformulação editorial.

A ver

Sábado, 11 de Abril de 2009

Alunos de jornalismo trocam carreira no NYT por blog famoso; as faculdades estão preparadas?


Eu já havia abordado o tópico no post Jornalismo ainda é das carreiras mais procuradas, mesmo com jornais em crise. Agora, contudo, deu pano para mangas no blog do Knight Center esse mesmo tema intrigante.

Retomo rapidamente: se os jornais estão falindo nos EUA e na Europa, se a publicidade nas televisões despencou no mundo rico, se as demissões de profissionais de imprensa se tornaram frequentes e se as jornadas aumentaram no afã de produzir conteúdo para várias mídias, por que ser jornalista?

Sarah Lacy, colunista do blog TechCrunch, faz a mesma pergunta. E chega a uma conclusão adicional que eu não havia abordado no post acima: a concorrência às faculdades de jornalismo segue crescente, mas já dá sinais do Zeitgeist. Escreve Lacy:

"Quando pergunto a aspirantes a jornalistas onde querem estar em dez ou vinte anos, nenhum deles diz ‘New York Times ou Wall Street Journal’. Eles querem ter um blog famoso. E alguns já o têm"

Daí é uma outra questão que toma corpo: as faculdades de jornalismo estão preparadas para esse aluno e para esse treinamento e reflexão? Ou seguem atrasada no tempo, quando o bacana era ser repórter do NYT?

Como sói, ainda demora a tomar corpo no Brasil essa conversa. Aqui o bacana em geral é ser repórter da Globo. Menos para quem o é.