
O leitor Felipe me perguntou, em comentário de post anterior, sobre programas de trainee em jornalismo. Aproveitando o gancho da época de inscrições, comento.
Há vários programas de trainee no mercado, entre os quais ressaltaria o da Folha, do Estado, da Abril e da Globo - os maiores grupos de comunicação do país.
Desses, conheço melhor os da Folha, que fiz, em 2001, do Estado e da Abril, freqüentados por amigos.
O trainee do Estado me parece ter um perfil mais "acadêmico", digamos, ou mais analítico/expositivo. Inclui aulas de política, filosofia, ética e, claro, jornalismo. O ambiente não será muito estranho a qualquer recém-egresso de faculdade. Não há garantia de contratação ao término do curso.
[Aliás, um triste diferencial da área de comunicação: nossos trainees não pagam e não contratam. Em outros setor, como o trainee é entendido como líder do futuro, curso preparatório para gerentes e diretores, ele é contratado com bons salários (3.000 ou 4.000, mais benefícios) logo que aprovado na seleção ao programa de treinamento, que costuma durar um ano. Em comunicação, é um peneirão. Sem garantias.]
No trainee da Abril aprende-se a "fazer revistas". Pelo esquema de trabalho atual da editora, aprende-se também a fazer marketing e gerir orçamentos, funções altamente demandadas dos editores. É versátil, pluralista, e a maioria dos egressos acaba trabalhando por lá - embora penem alguns anos como frilas esporádicos antes de surgir uma vaga fixa, cada vez mais rara no grupo.
Sobre o trainee da Folha, que conheço mais de perto.
É certamente o mais "hands on" de todos, ou seja, sua proposta é ensinar a fazer jornal diário, fazendo jornal diário. Há palestras, passeios, minicursos, mas a ênfase é na apuração da técnica jornalística: pauta, entrevista, redação, edição. Curso puxado, que exige dedicação exclusiva. Creio que mais de 80% acabem trabalhando na redação após o curso, pelas estatísticas da editoria responsável. Mas é possível que outros 80% saiam ao cabo de 3 anos na redação, devido à praga do turnover que assola o mercado jornalístico paulistano e aos RHs pré-históricos que nele atuam.
Pelo que vejo - pura percepção subjetiva - o perfil buscado tem sido ano a ano mais rico. Já não basta falar inglês e ter se formado em boa faculdade de jornalismo. Entre os últimos aprovados há muitos que moraram no exterior, alguns com vivência acadêmica forte - até curso de doutorado -, outros fortemente envolvidos com atividades sociais, de preferência em outros países, e especialistas de todos os tipos e gostos: de gibis a química orgânica, passando por mercado de capitais e bandas da década de 80. A idéia, me parece, é diversificar a teia de saber da redação - o que obviamente tem prós e contras.
A prova de admissão é rigoroso. Mas para passar é fácil, basta, de fato, ler a Folha todos os dias pelo menos três meses antes da prova. Quase todas as questões dizem respeito a temas do noticiário.
A despeito de eventuais falhas, considero esses cursos de treinamento uma das melhores maneiras de entrar no mercado. A boa notícia é que há outras.