sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Regime militar no Brasil foi ditadura ou "ditabranda"? Leitores e jornal discordam


A polêmica do editorial da Folha de S.Paulo que chama a ditadura pós-1964 no Brasil de "ditabranda", comparando-a à ferocidade de ditaduras de esquerda, pega fogo no jornal e fora dele.

Publicado na terça, 17, o editorial, em determinada altura, cita (grifo meu):

"Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.

Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo."

No dia seguinte, carta no Painel do Leitor (link só para assinantes)

Ditadura
"Golpe de Estado dado por militares derrubando um governo eleito democraticamente, cassação de representantes eleitos pelo povo, fechamento do Congresso, cancelamento de eleições, cassação e exílio de professores universitários, suspensão do instituto do habeas corpus, tortura e morte de dezenas, quiçá de centenas, de opositores que não se opunham ao regime pelas armas (Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, por exemplo) e tantos outros muitos desmandos e violações do Estado de Direito.Li no editorial da Folha de hoje que isso consta entre "as chamadas ditabrandas -caso do Brasil entre 1964 e 1985" (sic) ....

E, em seguida, a emenda pior que o soneto: uma resposta da redação sobre o tema.

Nota da Redação - Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional.

Hoje, em vez de uma carta, o Painel do Leitor (link só para assinantes) traz várias, duas das quais de figuras conhecidas nas redações e universidades:

"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda'? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!" MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)

"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana." FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)

E que recebem, especificamente, resposta ainda mais dura da redação:
Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.

Assunto polêmico que renderá ainda muito debate.
Em tempo, há uma carta de apoio. De um militar.

5 comentários:

Daniel disse...

De esquerda é ditadura, de direita a dita é branda.
Faz sentido.

Fausto Salvadori disse...

Tanto pior que a afirmação veio da Folha, um jornal que (ao contrário, por exemplo, do Estadão) teve um histórico conhecido de comprometimento com a ditadura militar durante os seus piores anos.

Anônimo disse...

E, ainda hoje é possível encontrar docente público federal que jura pela santíssima trindade de que o
Regime era dotado de uma bondade tão extremada, mas tão extremada mesmo, pelo nosso educacional, ao ponto de o ter nomeado sem concurso, exclusivamente por ter convencido general avalizador de ficha dos ingressantes de que ele era o mais competente academicamente possível para o cargo.

Renato Essenfelder disse...

O que me intriga, na verdade, nem é a revisão histórica, um direito de opinião do jornal publicado no devido espaço.
É a resposta infeliz e descortês, absolutamente estranha à empresa, aos professores-leitores Comparato e Benevides.

Anônimo disse...

Será que a ditadura de Augusto Pinochet, de direita, foi branda?! Pelo que me consta ela é considerada historicamente a pior e mais cruel ditadura que houve na América Latina. É óbvio que a Folha de São Paulo, assim como a Globo, vão eufemizar a ditadura no Brasil, elas foram beneficiadas com esse regime...Acredito que quem ainda defende a ditadura militar só pode ser ignorante ou mais cruel que os próprios torturadores...Concordo com o Renato Essenfelder, a resposta utilizada pelo jornal foi ridícula, deixando claro que necessitava submeter-se a essa baixaria porque não havia argumentos!

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